o meu cigarro apagou
  

meio índio, meio branco

meio preto

mais que homem

homem e meio

sou assim, sou feito

homem brasileiro



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 10h55
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E, após a chuva branda, se instala (entala?) o cobertor de fumaça sobre o centro do belo horizonte.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 18h43
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NATAÇÃO

 

 

Pedro Ivo Soares Vergão era um menino problemático. Ele odiava tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Sua mãe morreu no oitavo mês de gravidez, por não resistir mais aos chutes de seu filho. Era praticamente um feto Romário. Seu pai era jogador de futebol, e por isso ele chutava tão bem. E por isso também odiava esse esporte. Aos sete anos de idade, fabricou em sua casa uma bomba caseira feita à base de gordura de cachorro, e explodiu a base da arquibancada do seu colégio no dia da final do campeonatinho de futebol colegial. Torcia sempre contra o time da escola, e contra todos os outros times também. Ia muito bem no colégio, mas odiava todas as matérias. Preocupado, seu pai o obrigou a fazer tratamento psicológico. Após a quinta sessão, o seu psicólogo finalmente entendeu a revolta do menino, e se suicidou. Isso fez com que o pequeno Pedro Ivo odiasse ainda mais, se é que isso era possível. Já havia pensado em suicídio, mas se odiava tanto que achava que não valia a pena sujar as mãos com o próprio sangue. Durante a faculdade decidiu escrever um livro, na tentativa de explicar pro mundo o seu ódio. Lá no fundo ele sonhava em conhecer pessoas com o mesmo ódio que ele. Quem sabe assim ele se sentiria, pela primeira vez na vida, normal. Até que as coisas estavam indo bem, o livro estava sendo terminado - apesar do ódio que Pedro sentia por ele -, mas um grave problema havia ocorrido no pobre rapaz. Tinha sido picado por uma aranha muito estranha, meio rosa, meio verde, amarela... Os médicos todos descobriram o mais novo caso raro na medicina: Pedrinho tinha sido picado pelo bichinho da psicoatividade visceral. Pedrinho fugiu do hospital, por odiar ser objeto de estudo. O que os médicos não entendiam era que a única coisa que a doença fazia era concretizar seu ódio. Seu ódio era agora palpável, visto que depois da picada passou a ter representação física. E um dia esse ódio fugiu. Foi o maior bafafá! Mas Pedro pela primeira vez conseguiu amar. E amava tanto, mas tanto, que foi atrás do seu ódio, pois agora gostava muito dele. Foram cinco anos de procura sem sucesso. Seu ódio havia começado guerras, usinas poluidoras, correntes filosóficas e até carreira política, mas Pedrinho nunca o encontrava. Enquanto isso o amor corroía Pedrinho por dentro. Até que, no final desses cinco anos, o amor havia adentrado tanto o corpo e a mente de Pedro Ivo que ele não conseguiu viver. Explodiu em uma grande bolota de amor, e em volta dele nasceu uma sorveteria. Hoje em dia essa sorveteria traz muito amor para as pessoas que podem pagar, e seu ódio agora é simplesmente um prédio fosco, chamado "Tierra de la Platanía", onde se ensinam as crianças a nadar.

  

Vigil, Taucce & Cerqueira



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 00h23
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Vão andando um pouco longe das minhas vistas esses tempos também. Só mesmo umas mudas, capins de chá e cana, e hortaliças aqui e ali. Esse mês teve muita pitanga docinha e vermelha, agora as mangas tão começando a amarelar, primeiro as coquinho, como de costume; daqui a pouco, espada e ubá! meu jatobá morreu... mas tem uma mixiriquinha que tá ficando viçosa, um café crescendo folhudo, e uma outra pitangueira pequena tentando catar os últimos raios do sol... alguém pôs um cidreira na frente dela, tenho que fazer infusão dele logo, sempre esqueço, pra abrir esse solzinho pra ela. os passarinhos parece que estão vindo menos aqui este ano. ano passado eu comi pitanga com o sanhaço. esse ano o sanhaço nem veio. eu gosto de ouvir ele...



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 01h56
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subo montanha: nasço.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 14h11
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Noite dessas, sonhei com Diadorim.

Diadorim tinha uns peitos.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 00h06
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   montanha é coisa que não tem começo: nem fim.

Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 11h53
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Eu nem me lembrava mais de como era. Só achava que lembrava. Me mudei para a cidade onde fui parido. Não sou deste lugar mais do que sou da China, da Eritréia, do Pacífico, da Lua. Sabe, a gente separa o que é uno só pra facilitar, mas se esquece de fazer o raciocínio de volta. Desdestinguir. Deslizo neste contínuo. O tempo se dobra sob mim; fecho os dedos sobre a palma da mão, e os abro. Eu me dobro sob o tempo, eu me dobro, eu dobro o tempo. . .

 

Agora venho de onde sou - venho sempre, sempre estou lá - e lá não é lugar.

 

Movo-me. As costas das minhas mãos encaram as costas da terra. Movo-me, imóvel. Alimento-me sem deglutir; não durmo, e descanso; ofereço.

 

Venho desabalado, parece que as chuvas já cessaram, as obras continuam, muita coisa pra brincar.

Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 00h43
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em janeiro eu passo a vida

em fevereiro, a vida passa de mim

Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 14h23
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   Quando acabar de ler, leia na ordem inversa.

 

o machucado doído, a ressaca, a voz embargada, a língua amarga, o ópio, o sonho sépia, a remela, a carne sangrando, a parede branca, o bosque de abetos, o céu sem nuvens, a nuvem branca, a parede cinza, a pele coberta de abcessos, o longe, a escolha aleatória, o olho aberto, o coito, a caixa trancada, a banda, a fita colorida no cabelo, o álcool, o tombo, o frio, o escombro, o infeliz encontro com o cachopo, a narina desesperada, o tigre, a comédia, o choro exagerado, a quebra, a curva, o dois, a parcimônia, o acidente, o perto, o fatal escolho, a lucidez, a umidade, a prontidão, o desvario completo, a comida, o rango, a alimentação, o passo, o movimento pendular, a gota, o pêlo, o dó, a cruz, o malte, o nó, o pó, a pena, o bardo, a sinceridade mais pura, o absurdo, o finito, a voz, a ambigüidade paradoxal, a redundância dúbia, o pleonasmo antitético, a molécula, o esquecimento, a matéria, a disciplina, o arrego, a rede, a arrogância, a benevolência, a compaixão, a luxúria, a chutação de balde, o ó, o ô, o trabalho, o embargo, o suspiro, a alegria, o fardo, a aresta, o resto, a festa, a linha, o samba, a vaga, a onda, o gelo, a estória velha, o fogo, o pilar, o rogo, a pilastra, o logro, o pilantra, o malandro, a planta, o bicho, o sereno, a viola, o nicho, a moda, o lixo, a roda, o cansaço, o talvez, o quem sabe, o fim, o amor.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 16h25
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   Como se toca nas alterosas

  
                        O nosso som é pesado
                        É denso, e assim o som voa
                        É de metal impregnado
                        É assim que voa o nosso som


                                Ondas de ferro
                                        sobre
                                Ondas de ferro


                Onda         Metal
        sobre        sobre
                Onda         Metal

   
                        O nosso corpo é pesado
                        É assim no chão pregado
                        É assim do chão arremessado
                        É onde voa o nosso corpo:
                                        - O nosso som.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 15h40
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   Ainda sobre palavras não ditas


"Era diferente de quando se comunicavam mesmo em silêncio; parece que as palavras ficavam entaladas na garganta e agora se entalavam também no nervo óptico, e se entalavam sob toda a epiderme, e não se externavam, não fluíam para fora, não saíam, e morriam dentro dos corpos, e ninguém dizia nada, e então nada viveram, senão o inútil e penoso exercício de remoer as inúmeras conjecturas sobre o que poderia ter sido, mas não foi".

Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 20h12
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E como ficam então as palavras
que eu não falo?
Se não as escrevo (as palavras)
se vão num estalo!


- Depois vêm e voltam, e vêm...
  dando voltas e voltas, e vão...
  Tantas tantas tantas tonteiam.


E vão que em vão
não as digo (que palavras?)
Que são expurgo!

Que vultos pretéritos
mortos e enterrados (as palavras...)
Eu calo e rasgo!


Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 17h54
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As coisas sensatas só se saberão gritadas pelos loucos nus.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 00h20
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Embora Eu

 

 

Embora eu esteja cá e lá envolto em bruma

Embora meu sentido seja turvo

A minha pele só escolha o que é quente

A minha visão só veja vultos

E as nuvens sejam muita espuma

Onde os meus braços se debatem...

 

Embora toda transparência

Torne-se invisível no escuro

E por isso meu tato se distraia

A dedilhar os vazios puros

E os odores sejam tão fracos

E sejam tantos e tão acres

 

Embora o paladar só me sirva

A saber da comida só presença

E o pensamento todo roto

Rápido, rutilante, curve a língua

A uma fala surda, um discurso torto

Que urra e berra; depois, míngua

 

Embora o meu esforçado respirar

Seja eterno atordoado entrecortar-se

Em que uma expiração é sempre morta

Por uma inspiração afobada e funda

Desafinada nascida antes da hora

A matar-me as palavras ainda no ventre

 

Embora do chão meus pés sorvam animais

Ao pisarem sobre a terra errantes a tentar

Sustentar-me entre agulhas e o fogo

E pulse difusa nas vísceras uma dor

Agoniada da inveja úmida e vermelha

Que sinto das grandes aves voadoras

 

Em boa hora irá tudo quando embora eu me for.



Escrito por nem joão, nem zé. Viné, às 02h14
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